Cacos Reunidos

O rádio está ligado. Ouço Jamie Cullum cantar “I’ll make you a mixtape that’s a blueprint of my soul”. Houve um tempo em que eu gravava mixtapes para amigos, parentes, amores e também para consumo próprio. Chamava-as de fitinhas. Ficava horas pensando na ordem das músicas, somando os tempos para que a seleção coubesse nos 30 ou 45 minutos de cada um dos lados. Era um trabalho artesanal, com boas doses de curadoria e paciência. “A sparkling jewel of manual labour.”

Escolher os LPs (e depois os CDs), ver quais faixas combinavam com a temática da fita, colocar a agulha no espacinho do vinil entre uma música e outra, rezar para ela não derrapar nessa manobra enquanto apertava o rec/play, ficar atenta ao fim da canção para pressionar o stop e recomeçar toda a operação com a próxima da lista. Evitava as versões ao vivo, pois detestava o corte seco das palmas. Ah, eu também produzia a “capa” da fita, fazia umas colagens personalizadas de acordo com a pessoa que a receberia de presente.


Além de gravar, eu também ganhava fitas com compilações caseiras. Naqueles tempos analógicos, era uma ótima maneira de conhecer novas músicas, bandas e artistas. Nessas fitinhas, eu ouvi pela primeira vez Nina Simone, Ella Fitzgerald, David Bowie, Led Zeppelin, Joy Division, Mutantes, Echo&The Bunnymen e muitos outros que ainda me fazem companhia décadas depois. Mas agora quem define a ordem do meu desfile musical particular é o modo aleatório do tocador de mp3.


Numa rápida escavação arqueológica em minha sala encontro algumas fitas escondidas no fundo do rack. Sobreviveram a mudanças de casa e arrumações de fim de ano. Não tenho mais onde escutá-las e redescobrir os sons que as tiras magnéticas ocultam. “Para ouvir no ônibus vol. 1”, diz uma delas. “Músicas para momentos oportunos 3” é o título de outra. Uma está sem caixinha. Na etiqueta do lado B, em tinta azul, está escrito apenas “Cacos reunidos”. O que eu quis dizer com isso? Não faço ideia. Se as mixtapes podem ter alguma coisa a ver com a nossa alma, como canta o Jamie Cullum, nem quero imaginar o estado da minha quando gravei essa K7.

fitinhas

Um comentário sobre “Cacos Reunidos

  1. Que tipo de música tinha na seleção para reunir os cacos? Será que era uma seleção que auxiliava no recolhimento (tipo I Will Survive) ou uma seleção pós-guerra afetiva?

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