O gentleman de Santa Cecília

Os vizinhos do quarteirão de cima são uma família forjada pelo acaso e não pelo genes. O mais velho deles, de suíças esbranquiçadas, é o avô. O filho, mulato claro, está sempre descalço e dorme mesmo com o sol do meio dia. A filha, muito magra e muito negra, é a rainha desse lar improvisado. Tem um companheiro, igualmente magro, com quem divide o esburacado colchão de solteiro. No mocó que construíram na metade da calçada com papelão, restos de madeira, tecidos e velharias, embaixo da pequena marquise de um prédio comercial que está para alugar, há ainda espaço para agregados e visitantes.

Desconfio que foram desapropriados pela ciclovia construída embaixo do Minhocão e tiveram que levar as tralhas a salvo das bikes. Encontraram aquele ponto vago, ali nas proximidades, e foram ficando. Há alguma organização e rotina no lugar. Tentam deixar as coisas ajeitadas, sem muita bagunça. Já os vi varrendo a calçada e jogando no cesto de lixo o que parecia ser os restos de uma refeição. Talvez com medo da crise hídrica, armazenam água em garrafões de 5 litros. Na hora de dormir, que pode ser qualquer hora, estendem os colchões na calçada. Um dos travesseiros que usam, já bem maltratado pelo tempo, foi presente meu. O avô recebeu e agradeceu.

Hoje, os quatro estão acordados e conversam entre si. A filha separa uma blusa para vestir e começa a se despir na frente de todos – familiares, pedestres e motoristas. Dá as costas ossudas para a rua e vira-se para a parede, na ilusão de privacidade. O companheiro vê e rapidamente estende um pano para proteger a amada dos olhares curiosos. Ela sorri e agradece seu homem, um gentleman.

Feriado

Era uma terça-feira. Descubro agora consultando um calendário antigo. 12 de outubro de 1982.
O primeiro Dia das Crianças do qual eu me lembro. Acordei mais cedo que de costume, animada com o passeio programado pelo meu pai para o feriado: ver aviões de verdade, grandões, no aeroporto de Viracopos, em Campinas. Uma novidade para meus olhinhos que, ate então, só tinham avistado uns teco-tecos que mais pareciam brinquedo de gente grande.
Uma segunda razão aumentava o entusiamo: a ideia do feriado em si. Naquele 12 de outubro de 1982 entendi o que significava um feriado. Um dia de folga da escola, uma agradável pausa na rotina, para passear com os pais, descansar e se divertir. “Mas hoje é feriado por que é dia das crianças?” Meu pai ou minha mãe – não lembro quem – me explicou que aquele dia era feriado em homenagem a Nossa Senhora Aparecida, a santa padroeira do Brasil, um feriado novo, criado dois anos antes, quando o papa visitou o país em 1980.
Eu lembrava da visita do papa, que usava roupa branca de padre e falava português engraçado. Fiquei contente com a explicação, mas, momentos depois, uma dúvida me abateu: “não era feriado quando vocês eram crianças? E nem quando vocês casaram? Que triste!”
A comemoração de aniversário de 15 anos de casamento de meus pais era o terceiro motivo daquele passeio familiar. Na Belina II prateada, levei junto o meu presente de Dia das Crianças, uma boneca Sorvetinho, de cabelos de lã cor-de-rosa, que se tornou a minha favorita da infância. Queria que chegássemos logo a Campinas, nosso destino, uma cidade que me encantava com suas grandes avenidas, hipermercado, loja de departamento e café expresso, que tomei lá pela primeira vez. Naquela altura da minha vida, já tinha um fascínio precoce pela urbanidade.

Pizza

O pedido? O mesmo de sempre, uma pizza grande Napolitana, a favorita de minha mãe. Aquela borda com bolhas irregulares meio tostadinhas e pinceladas com molho ralo de tomate me encantava. O que significava aquela comida misteriosa, completamente diferente da servida em casa? Eu não conseguia mastigar direito o queijo derretido, a massa meio dura desafiava os meus dentinhos de leite. Mas ir à pizzaria com meus pais, sentar no cadeirão e sentir aquele cheiro bom de lenha queimada era um programão para os meus quase 3 anos de idade.

38 anos depois, o pedido é outro: uma 4Stagioni, de 32 centímetros de diâmetro. Paro de conversar e de mexer no celular, quase paro de respirar. A pizza chega, iluminando a mesa. Ouço um rufar de tambores que me autoriza: ATACAR!!

Cravo uma mordida impiedosa na fatia de Margherita. A massa fina e crocante não desafia mais os meus dentinhos. Sinto o leve queimado da borda e as diferentes texturas da base e do recheio. Fecho os olhos e me entrego à volúpia causada pelo molho de tomate. Sou capaz de bebê-lo puro, como um néctar. É um Molho de Tomate digno de capitulares e reverências. Como cobertura, a mozzarela não sobra nem falta, cumpre perfeitamente seu papel coadjuvante no equilíbrio de sabores. E a folhinha de manjericão fresco dá o toque aromático e verde que, segundo a lenda, representa uma das cores da bandeira do meu outro país.

Calorias, gordura saturada, licopeno, glúten, sódio? Não, os componentes daquela fatia são outros: poesia, conforto, mistério, perfeição e encantamento.

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Filatelia, uma atividade analógica em tempos digitais

DSC_0049 Há 175 anos, um procedimento aparentemente óbvio revolucionou o sistema de correio. A começar pelo da Inglaterra, país que criou o selo postal: um pedaço de papel monocromático ou colorido, com valor monetário impresso. Quando colado na frente de um envelope ou pacote, serve de recibo de pagamento pelo serviço de entrega daquele objeto. Antes dessa invenção, quem pagava pela correspondência era o destinatário, que simplesmente poderia se negar a receber a carta, deixando a administração postal no prejuízo.

O Brasil foi o segundo país do mundo a adotar o selo postal como comprovante de pagamento, em 1º de agosto de 1843. Parece que D. Pedro II adorava novidades e quis logo implantar a invenção britânica no império que administrava. Essa é uma das muitas histórias ouvidas nas reuniões da Sociedade Philatelica Paulista, SPP para os íntimos, que acontecem aos sábados na sede própria da entidade, localizada no Largo do Paissandu, 51, centro da capital.

Quase um século coexiste naquele ambiente que ocupa a espaçosa cobertura do edifício. A decoração tem ares masculinos, com direto a busto e retratos do segundo imperador do Brasil moço, maduro e já de barba branca. O ambiente, a biblioteca, a fala das pessoas e o próprio ato de colecionar selos estão impregnados de século 20, período em que a filatelia tomou grande impulso, popularizou-se como hobby e ganhou regras. Já a contemporaneidade fica por conta dos smartphones dos sócios, pelo datashow utilizado nas palestras, pela página da SPP no Facebook e pela dúvida que vez ou outra anima as conversas. A internet pode acabar com a filatelia, uma vez que a circulação de cartas diminuiu nas últimas décadas?

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O Verme Paulistano

Perguntaram-me o que acho do Minhocão, se deve ser demolido, virar parque ou acabar em pizza. Não tenho uma opinião formada sobre o assunto, para variar. Sei apenas que minha vida e o Elevado Costa e Silva formam quatro esquinas. A primeira é a do georreferenciamento, como um complemento de meu endereço.

– Onde você mora?
– Sabe o Minhocão? Então, a dois quarteirões dali.

Atravesso o próximo cruzamento em um automóvel. Como motorista, percorro agora a passarela elevada de asfalto. Eu gosto de dirigir no Minhocão, cortar caminho para ir ao Bixiga, ao Ibirapuera, ao aeroporto. Sem trânsito, é rapidão. Anos atrás, acreditem, tinha medo de passar de carro lá. Achava as pistas estreitas demais, o muro de proteção frágil demais. Dava-me um pouco de vertigem, uma certa aflição. Bobagem…

Deixo o carro na garagem e vou para o ponto de ônibus sob o elevado. É a terceira esquina. A mais feia delas. Escura, degradada, suja. Colorida com pixos, grafites, cartazes. Habitada por nóias, bêbados, desiludidos, que se escondem da vida nessa noite eterna e artificial. É onde o Minhocão é mais Minhocão, o verme gigante rasgando as entranhas desvairadas desta Paulicéia embrutecida. Enquanto espero passar o Praça Ramos ou o Paissandu, penso que esse Minhocão poderia, sim, acabar.

O quarto cruzamento é apenas imaginário. O elevado não existe mais, estamos no mesmo nível. É manhã de domingo, subo a pé ou de bicicleta a alça de acesso. Não vejo mais o Minhocão. Vejo outras coisas. Vejo meninos jogando futebol. Um pai de patins empurrando o bebê no carrinho. Um grupo de estudantes de arquitetura fazendo trabalho. Vejo fotógrafos amadores a capturar a fotogenia urbana. Uma família de bolivianos tomando o banho de sol permitido. Vejo amigos bebendo água de coco, bikers solitários ou em grupos, um cinquentão tatuado e sem camisa treinando corrida. Vejo uma peça de teatro encenada na janela do prédio vizinho. Uma quadrilha de festa junina. Vejo uma cãofraternização, uma performance artística, turistas gringos de Havaianas nos pés branquelos. Vejo vizinhos do bairro com as compras da feira, uma gravação de videoclipe. Vejo um mato verdejando no canteiro central, uma réplica da “Dança”, de Matisse, pintada no asfalto. Vejo uma turma fazendo um piquenique, uma galera dançando numa balada de black music, dois carinhas fumando maconha e discutindo política. Vejo tudo isso, vejo vida, não vejo o Minhocão.

Mas ele está lá, na expectativa de ser demolido, virar parque ou continuar como é. Uma estrutura de cimento e asfalto que leva e traz pessoas, carros, motos, ambulâncias, ilusões, rotinas, pressas, mercadorias, encontros e alternativas.

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Jornalismo gastronômico

Em 2005, defendi minha dissertação de mestrado, “Muito além da crítica – gastronomia e produção de sentidos nos jornais econômicos”.

Utilizando como instrumental teórico elementos das Ciências da linguagem, a dissertação trata da evolução dos gêneros resenha crítica e roteiro, além de investigar questões como a presença de propaganda disfarçada de conteúdo editorial; a gastronomia como maneira de diferenciação social, e o tratamento reservado pela imprensa à culinária brasileira.

Como objetivo secundário, é apresentado um breve histórico do tema gastronomia nas folhas paulistanas, para situar o surgimento nos anos 1950 do primeiro roteiro de restaurantes publicado com regularidade em jornal na cidade de São Paulo. O estudo traz ainda a classificação dos textos sobre gastronomia quanto aos gêneros do discurso jornalístico, uma das condições necessárias para entender o estágio do jornalismo gastronômico naquele período.

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