O gentleman de Santa Cecília

Os vizinhos do quarteirão de cima são uma família forjada pelo acaso e não pelo genes. O mais velho deles, de suíças esbranquiçadas, é o avô. O filho, mulato claro, está sempre descalço e dorme mesmo com o sol do meio dia. A filha, muito magra e muito negra, é a rainha desse lar improvisado. Tem um companheiro, igualmente magro, com quem divide o esburacado colchão de solteiro. No mocó que construíram na metade da calçada com papelão, restos de madeira, tecidos e velharias, embaixo da pequena marquise de um prédio comercial que está para alugar, há ainda espaço para agregados e visitantes.

Desconfio que foram desapropriados pela ciclovia construída embaixo do Minhocão e tiveram que levar as tralhas a salvo das bikes. Encontraram aquele ponto vago, ali nas proximidades, e foram ficando. Há alguma organização e rotina no lugar. Tentam deixar as coisas ajeitadas, sem muita bagunça. Já os vi varrendo a calçada e jogando no cesto de lixo o que parecia ser os restos de uma refeição. Talvez com medo da crise hídrica, armazenam água em garrafões de 5 litros. Na hora de dormir, que pode ser qualquer hora, estendem os colchões na calçada. Um dos travesseiros que usam, já bem maltratado pelo tempo, foi presente meu. O avô recebeu e agradeceu.

Hoje, os quatro estão acordados e conversam entre si. A filha separa uma blusa para vestir e começa a se despir na frente de todos – familiares, pedestres e motoristas. Dá as costas ossudas para a rua e vira-se para a parede, na ilusão de privacidade. O companheiro vê e rapidamente estende um pano para proteger a amada dos olhares curiosos. Ela sorri e agradece seu homem, um gentleman.

O Verme Paulistano

Perguntaram-me o que acho do Minhocão, se deve ser demolido, virar parque ou acabar em pizza. Não tenho uma opinião formada sobre o assunto, para variar. Sei apenas que minha vida e o Elevado Costa e Silva formam quatro esquinas. A primeira é a do georreferenciamento, como um complemento de meu endereço.

– Onde você mora?
– Sabe o Minhocão? Então, a dois quarteirões dali.

Atravesso o próximo cruzamento em um automóvel. Como motorista, percorro agora a passarela elevada de asfalto. Eu gosto de dirigir no Minhocão, cortar caminho para ir ao Bixiga, ao Ibirapuera, ao aeroporto. Sem trânsito, é rapidão. Anos atrás, acreditem, tinha medo de passar de carro lá. Achava as pistas estreitas demais, o muro de proteção frágil demais. Dava-me um pouco de vertigem, uma certa aflição. Bobagem…

Deixo o carro na garagem e vou para o ponto de ônibus sob o elevado. É a terceira esquina. A mais feia delas. Escura, degradada, suja. Colorida com pixos, grafites, cartazes. Habitada por nóias, bêbados, desiludidos, que se escondem da vida nessa noite eterna e artificial. É onde o Minhocão é mais Minhocão, o verme gigante rasgando as entranhas desvairadas desta Paulicéia embrutecida. Enquanto espero passar o Praça Ramos ou o Paissandu, penso que esse Minhocão poderia, sim, acabar.

O quarto cruzamento é apenas imaginário. O elevado não existe mais, estamos no mesmo nível. É manhã de domingo, subo a pé ou de bicicleta a alça de acesso. Não vejo mais o Minhocão. Vejo outras coisas. Vejo meninos jogando futebol. Um pai de patins empurrando o bebê no carrinho. Um grupo de estudantes de arquitetura fazendo trabalho. Vejo fotógrafos amadores a capturar a fotogenia urbana. Uma família de bolivianos tomando o banho de sol permitido. Vejo amigos bebendo água de coco, bikers solitários ou em grupos, um cinquentão tatuado e sem camisa treinando corrida. Vejo uma peça de teatro encenada na janela do prédio vizinho. Uma quadrilha de festa junina. Vejo uma cãofraternização, uma performance artística, turistas gringos de Havaianas nos pés branquelos. Vejo vizinhos do bairro com as compras da feira, uma gravação de videoclipe. Vejo um mato verdejando no canteiro central, uma réplica da “Dança”, de Matisse, pintada no asfalto. Vejo uma turma fazendo um piquenique, uma galera dançando numa balada de black music, dois carinhas fumando maconha e discutindo política. Vejo tudo isso, vejo vida, não vejo o Minhocão.

Mas ele está lá, na expectativa de ser demolido, virar parque ou continuar como é. Uma estrutura de cimento e asfalto que leva e traz pessoas, carros, motos, ambulâncias, ilusões, rotinas, pressas, mercadorias, encontros e alternativas.

verme