Pizza

O pedido? O mesmo de sempre, uma pizza grande Napolitana, a favorita de minha mãe. Aquela borda com bolhas irregulares meio tostadinhas e pinceladas com molho ralo de tomate me encantava. O que significava aquela comida misteriosa, completamente diferente da servida em casa? Eu não conseguia mastigar direito o queijo derretido, a massa meio dura desafiava os meus dentinhos de leite. Mas ir à pizzaria com meus pais, sentar no cadeirão e sentir aquele cheiro bom de lenha queimada era um programão para os meus quase 3 anos de idade.

38 anos depois, o pedido é outro: uma 4Stagioni, de 32 centímetros de diâmetro. Paro de conversar e de mexer no celular, quase paro de respirar. A pizza chega, iluminando a mesa. Ouço um rufar de tambores que me autoriza: ATACAR!!

Cravo uma mordida impiedosa na fatia de Margherita. A massa fina e crocante não desafia mais os meus dentinhos. Sinto o leve queimado da borda e as diferentes texturas da base e do recheio. Fecho os olhos e me entrego à volúpia causada pelo molho de tomate. Sou capaz de bebê-lo puro, como um néctar. É um Molho de Tomate digno de capitulares e reverências. Como cobertura, a mozzarela não sobra nem falta, cumpre perfeitamente seu papel coadjuvante no equilíbrio de sabores. E a folhinha de manjericão fresco dá o toque aromático e verde que, segundo a lenda, representa uma das cores da bandeira do meu outro país.

Calorias, gordura saturada, licopeno, glúten, sódio? Não, os componentes daquela fatia são outros: poesia, conforto, mistério, perfeição e encantamento.

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Preto ou marrom?

Há dias apareceu um vira-lata na esquina. Preto ou marrom? De tão encardido, é difícil saber a cor original. Geralmente quando eu passo pela calçada, ele dorme com a cabeça encostada na soleira do bar. Mas hoje o cão está desperto e sacode o rabo, em posição de alerta. Parado na bifurcação, ele olha fixamente para algum ponto da outra rua. Tento descobrir o que atrai sua atenção. De repente, solta um latido. Seco, agudo, ansioso. Vejo, então, o motivo de seu interesse canino: um grupo de pets conduzido pelo passeador uniformizado. O rapaz segura as guias com firmeza, ciente do seu métier. Conto um, dois, três, quatro, cinco cachorros de porte médio e raças variadas, incluindo um SRD.

– Au! Au! Au! – ladra o totó, buscando a atenção de seus supostos pares.

Os pets o ignoram, lançando-o na invisibilidade a que um homeless canino ou humano está fadado a viver. Só que não. O cachorro da esquina insiste e começa a seguir a esnobe matilha. Anda lado a lado com eles, forjando uma convivência. E começa a imitá-los, deixando em suspenso sua liberdade vira-lata. Se os pets param para cheirar o matinho do canteiro, ele vai lá e mete o focinho também. Se fazem xixi no poste, ele acompanha. Se dois ou três deles latem para o gato que espreguiça na beirada da janela, o totó engrossa o coro. E assim, por três quarteirões e meio, enquanto dura o passeio burocrático dos pets, o cão preto ou marrom experimenta a perigosa e ilusória sensação do pertencimento.

(Baseado em fatos reais. Imagem meramente ilustrativa. No animals were harmed during this writing.)

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O Verme Paulistano

Perguntaram-me o que acho do Minhocão, se deve ser demolido, virar parque ou acabar em pizza. Não tenho uma opinião formada sobre o assunto, para variar. Sei apenas que minha vida e o Elevado Costa e Silva formam quatro esquinas. A primeira é a do georreferenciamento, como um complemento de meu endereço.

– Onde você mora?
– Sabe o Minhocão? Então, a dois quarteirões dali.

Atravesso o próximo cruzamento em um automóvel. Como motorista, percorro agora a passarela elevada de asfalto. Eu gosto de dirigir no Minhocão, cortar caminho para ir ao Bixiga, ao Ibirapuera, ao aeroporto. Sem trânsito, é rapidão. Anos atrás, acreditem, tinha medo de passar de carro lá. Achava as pistas estreitas demais, o muro de proteção frágil demais. Dava-me um pouco de vertigem, uma certa aflição. Bobagem…

Deixo o carro na garagem e vou para o ponto de ônibus sob o elevado. É a terceira esquina. A mais feia delas. Escura, degradada, suja. Colorida com pixos, grafites, cartazes. Habitada por nóias, bêbados, desiludidos, que se escondem da vida nessa noite eterna e artificial. É onde o Minhocão é mais Minhocão, o verme gigante rasgando as entranhas desvairadas desta Paulicéia embrutecida. Enquanto espero passar o Praça Ramos ou o Paissandu, penso que esse Minhocão poderia, sim, acabar.

O quarto cruzamento é apenas imaginário. O elevado não existe mais, estamos no mesmo nível. É manhã de domingo, subo a pé ou de bicicleta a alça de acesso. Não vejo mais o Minhocão. Vejo outras coisas. Vejo meninos jogando futebol. Um pai de patins empurrando o bebê no carrinho. Um grupo de estudantes de arquitetura fazendo trabalho. Vejo fotógrafos amadores a capturar a fotogenia urbana. Uma família de bolivianos tomando o banho de sol permitido. Vejo amigos bebendo água de coco, bikers solitários ou em grupos, um cinquentão tatuado e sem camisa treinando corrida. Vejo uma peça de teatro encenada na janela do prédio vizinho. Uma quadrilha de festa junina. Vejo uma cãofraternização, uma performance artística, turistas gringos de Havaianas nos pés branquelos. Vejo vizinhos do bairro com as compras da feira, uma gravação de videoclipe. Vejo um mato verdejando no canteiro central, uma réplica da “Dança”, de Matisse, pintada no asfalto. Vejo uma turma fazendo um piquenique, uma galera dançando numa balada de black music, dois carinhas fumando maconha e discutindo política. Vejo tudo isso, vejo vida, não vejo o Minhocão.

Mas ele está lá, na expectativa de ser demolido, virar parque ou continuar como é. Uma estrutura de cimento e asfalto que leva e traz pessoas, carros, motos, ambulâncias, ilusões, rotinas, pressas, mercadorias, encontros e alternativas.

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Cacos Reunidos

O rádio está ligado. Ouço Jamie Cullum cantar “I’ll make you a mixtape that’s a blueprint of my soul”. Houve um tempo em que eu gravava mixtapes para amigos, parentes, amores e também para consumo próprio. Chamava-as de fitinhas. Ficava horas pensando na ordem das músicas, somando os tempos para que a seleção coubesse nos 30 ou 45 minutos de cada um dos lados. Era um trabalho artesanal, com boas doses de curadoria e paciência. “A sparkling jewel of manual labour.”

Escolher os LPs (e depois os CDs), ver quais faixas combinavam com a temática da fita, colocar a agulha no espacinho do vinil entre uma música e outra, rezar para ela não derrapar nessa manobra enquanto apertava o rec/play, ficar atenta ao fim da canção para pressionar o stop e recomeçar toda a operação com a próxima da lista. Evitava as versões ao vivo, pois detestava o corte seco das palmas. Ah, eu também produzia a “capa” da fita, fazia umas colagens personalizadas de acordo com a pessoa que a receberia de presente.


Além de gravar, eu também ganhava fitas com compilações caseiras. Naqueles tempos analógicos, era uma ótima maneira de conhecer novas músicas, bandas e artistas. Nessas fitinhas, eu ouvi pela primeira vez Nina Simone, Ella Fitzgerald, David Bowie, Led Zeppelin, Joy Division, Mutantes, Echo&The Bunnymen e muitos outros que ainda me fazem companhia décadas depois. Mas agora quem define a ordem do meu desfile musical particular é o modo aleatório do tocador de mp3.


Numa rápida escavação arqueológica em minha sala encontro algumas fitas escondidas no fundo do rack. Sobreviveram a mudanças de casa e arrumações de fim de ano. Não tenho mais onde escutá-las e redescobrir os sons que as tiras magnéticas ocultam. “Para ouvir no ônibus vol. 1”, diz uma delas. “Músicas para momentos oportunos 3” é o título de outra. Uma está sem caixinha. Na etiqueta do lado B, em tinta azul, está escrito apenas “Cacos reunidos”. O que eu quis dizer com isso? Não faço ideia. Se as mixtapes podem ter alguma coisa a ver com a nossa alma, como canta o Jamie Cullum, nem quero imaginar o estado da minha quando gravei essa K7.

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A Curiosidade, o Pássaro e o Jornalismo

Era uma vez uma garotinha muito curiosa. Chamavam-na Maria Perguntadeira, tamanha era sua curiosidade pelas coisas do mundo.

– O que, quem, quando, como, onde, por quê? – disparava a Perguntadeira em todas as direções.

Enquanto não conseguia uma explicação satisfatória, Maria saía perguntando aos pais, aos vizinhos, ao padre, ao farmacêutico e até aos passarinhos.

– Os passarinhos me ouvem e respondem. Não entendo as respostas porque ainda não aprendi Passarinhês – explicava a garotinha.

Todos os dias Maria observava o pôr-do-sol da janela do seu quarto. Quando ainda sobrava um resto de luz no horizonte, gritava para o rei dos astros:

– Por que você vai embora antes da Noite chegar?

Resposta nenhuma Maria ouvia. Só o vento assoviando. Uma bela tarde, porém, a garota ouviu mais que barulho de vento. Uma voz lhe respondeu:

– Se o Sol não for embora, a Noite não chega.

Levou um baita susto a Maria Perguntadeira. “Será que a árvore fala ou o Sol me respondeu?”, pensou. Continuar lendo “A Curiosidade, o Pássaro e o Jornalismo”

Crónica Lisboeta (2001)

O primeiro diálogo que travei ao chegar em Lisboa, numa manhã fria de primavera, foi com o dono de uma banca de jornal. Eu tinha em mãos um papelzinho com o endereço de uma casa de câmbio e precisava saber como chegar ao local para trocar logo o dinheiro. Arrisquei pedir a informação ao senhor que lia distraidamente as manchetes do Diário de Notícias.

EU: “Por favor, o senhor sabe onde fica a avenida Duque de Loulé?”

SENHOR: “Sei.”

silêncio

EU: “E o senhor pode me dizer onde fica essa avenida?”

SENHOR: “Posso.”

silêncio

EU: “Então, como faço para chegar lá?”

SENHOR: “Pois sim, a senhorita deve descer a rua à frente até o largo onde está a estação Restauradores. Nesse local, pegue o metrô que passa pela estação Marquês de Pombal, na qual a senhorita deverá saltar. A avenida que procura está a uma ou duas quadras da saída principal.”

Foi minha primeira descoberta sobre os portugueses: na terrinha, a objetividade é ouro! Aos patrícios de Camões e Figo, sempre pergunte exatamente o que quer saber para não deixar margem a segundas ou terceiras respostas. O mesmo idioma que une brasileiros e portugueses pode, por vezes, afastar. Parodiando o tão citado verso de Fernando Pessoa, navegar é preciso, falar não é preciso. Isso porque ao falar não estamos fazendo uso de instrumentos de precisão como astrolábios, bússolas e mapas, que guiavam pelo mar afora os bravos navegantes de outrora. De um lado para outro do Atlântico, as palavras mudam de sentido, ganham novos usos, adaptam-se às circunstâncias.  Continuar lendo “Crónica Lisboeta (2001)”