A Curiosidade, o Pássaro e o Jornalismo

Era uma vez uma garotinha muito curiosa. Chamavam-na Maria Perguntadeira, tamanha era sua curiosidade pelas coisas do mundo.

– O que, quem, quando, como, onde, por quê? – disparava a Perguntadeira em todas as direções.

Enquanto não conseguia uma explicação satisfatória, Maria saía perguntando aos pais, aos vizinhos, ao padre, ao farmacêutico e até aos passarinhos.

– Os passarinhos me ouvem e respondem. Não entendo as respostas porque ainda não aprendi Passarinhês – explicava a garotinha.

Todos os dias Maria observava o pôr-do-sol da janela do seu quarto. Quando ainda sobrava um resto de luz no horizonte, gritava para o rei dos astros:

– Por que você vai embora antes da Noite chegar?

Resposta nenhuma Maria ouvia. Só o vento assoviando. Uma bela tarde, porém, a garota ouviu mais que barulho de vento. Uma voz lhe respondeu:

– Se o Sol não for embora, a Noite não chega.

Levou um baita susto a Maria Perguntadeira. “Será que a árvore fala ou o Sol me respondeu?”, pensou. Continuar lendo “A Curiosidade, o Pássaro e o Jornalismo”

Crónica Lisboeta (2001)

O primeiro diálogo que travei ao chegar em Lisboa, numa manhã fria de primavera, foi com o dono de uma banca de jornal. Eu tinha em mãos um papelzinho com o endereço de uma casa de câmbio e precisava saber como chegar ao local para trocar logo o dinheiro. Arrisquei pedir a informação ao senhor que lia distraidamente as manchetes do Diário de Notícias.

EU: “Por favor, o senhor sabe onde fica a avenida Duque de Loulé?”

SENHOR: “Sei.”

silêncio

EU: “E o senhor pode me dizer onde fica essa avenida?”

SENHOR: “Posso.”

silêncio

EU: “Então, como faço para chegar lá?”

SENHOR: “Pois sim, a senhorita deve descer a rua à frente até o largo onde está a estação Restauradores. Nesse local, pegue o metrô que passa pela estação Marquês de Pombal, na qual a senhorita deverá saltar. A avenida que procura está a uma ou duas quadras da saída principal.”

Foi minha primeira descoberta sobre os portugueses: na terrinha, a objetividade é ouro! Aos patrícios de Camões e Figo, sempre pergunte exatamente o que quer saber para não deixar margem a segundas ou terceiras respostas. O mesmo idioma que une brasileiros e portugueses pode, por vezes, afastar. Parodiando o tão citado verso de Fernando Pessoa, navegar é preciso, falar não é preciso. Isso porque ao falar não estamos fazendo uso de instrumentos de precisão como astrolábios, bússolas e mapas, que guiavam pelo mar afora os bravos navegantes de outrora. De um lado para outro do Atlântico, as palavras mudam de sentido, ganham novos usos, adaptam-se às circunstâncias.  Continuar lendo “Crónica Lisboeta (2001)”

Vidas tangentes

Riscando o azul, um avião. A manhã está clara, ausência de nuvens no céu. Os raios de sol atravessam as copas do arvoredo, manchando o gramado mal cuidado. Há sujeira e abandono por toda parte. Copos plásticos, restos de comida, pontas de cigarro misturam-se ao barro, às formigas, ao mato crescido.

As árvores estão dispostas em círculo formando uma espécie de cerca viva. Na clareira interna, um poste procura disfarçar a escuridão quando a noite cai. Ao redor dele, meia dúzia de bancos de cimento lembra uma estranha escultura. Há ainda na praça um ponto de ônibus (principal motivo de movimentação humana no lugar), um carrinho de pipoca e, esquecida em um canto, uma banca de jornal e revista.

– Manhê, compra pipoca? O pipoqueiro acabou de fazer… Compra, vai?

– Já disse que não! E pare de chorar senão vai ter, ouviu?

“Começou cedo hoje. Todo dia é a mesma lengalenga. A fila do ônibus, o menino chorando, aquele imprestável que nem um empreguinho qualquer consegue. O vizinho até que falou de uma vaga como auxiliar de pedreiro, mas o infeliz deu de ombros. Ah, se eu pudesse, juro por Nossa Senhora Aparecida que mudava de vida. Pegava aquele avião lá em cima e ia me embora daqui. Sumia do mapa, desaparecia por esse mundão. Mas, e aí, o que é que eu ia fazer, meu Deus do céu, com marido e filho para sustentar? Largar os dois é que não é direito. Continuar lendo “Vidas tangentes”

Barba Branca

Tudo começou em uma tarde melancólica de início de outubro, logo após o cochilo imperial, naquele desbotado ano de 1877. D. Pedro II estava em seu gabinete, a passar os olhos pelas correspondências recebidas, quando ordenou ao secretário particular:

– Chama lá o Bento, urgente!

A notícia que o Imperador desejava sua presença imediata no palácio surpreendeu Bento.

– Despachei com o Imperador ontem e não me lembro de nenhuma pendência… Diga que em pouco mais de um quarto de hora lá estarei, disse o homem ao estafeta encarregado de transmitir o recado.

Bento, ou melhor, José Bento da Cunha Figueiredo era o então Ministro de Estado dos Negócios. Na corte, ostentava o título de Visconde do Bom Conselho.

D. Pedro II já mostrava sinais de impaciência, pela espera, quando a porta se abriu e o secretário anunciou:

– O ilustríssimo Visconde do Bom Conselho e Ministro de Estado dos Negócios. – Mande-o entrar – disse D. Pedro II.

O visconde entrou no gabinete e cumprimentou o Imperador, que estava em pé, ao lado da ampla mesa que lhe servia de escrivaninha. Sobre o tampo de mogno envernizado, havia uma baixela de prata com meia dúzia de envelopes. D. Pedro II pegou o primeiro da pilha e o entregou ao nobre.

– Ilustríssimo visconde, o que vê neste envelope?

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Diplomacia via postal

– Correio!

Pela fresta da cortina branca, Regina observou o carteiro se afastar ligeiro. Não procurou os chinelos embaixo do sofá e, descalça mesmo, saiu para pegar as cartas.

A caixinha metálica, pendurada no portão gradeado da garagem, protegia o saldo do dia: duas contas, uma propaganda de banco e um envelope branco, selado, carimbado, com seu nome e endereço manuscritos. Virou-o para ler o remetente.

– Chegou! – disse, numa confirmação aliviada.

Chaveou rapidamente a porta, atirou a correspondência no aparador, exceto o envelope branco. Com ele na mão, atravessou a sala, o corredor e entrou no quarto, onde havia uma escrivaninha de madeira quase encostada à janela, na direção oposta à cama. Regina parou em frente ao móvel, deixou a carta no centro do tampo envernizado, puxou a cadeira, sentou-se, abriu a pequena gaveta lateral e retirou dela outro envelope recebido dias atrás. Igualmente branco, de tamanho um pouco menor, com seu nome manuscrito. Continuar lendo “Diplomacia via postal”