O primeiro diálogo que travei ao chegar em Lisboa, numa manhã fria de primavera, foi com o dono de uma banca de jornal. Eu tinha em mãos um papelzinho com o endereço de uma casa de câmbio e precisava saber como chegar ao local para trocar logo o dinheiro. Arrisquei pedir a informação ao senhor que lia distraidamente as manchetes do Diário de Notícias.
EU: “Por favor, o senhor sabe onde fica a avenida Duque de Loulé?”
SENHOR: “Sei.”
… silêncio…
EU: “E o senhor pode me dizer onde fica essa avenida?”
SENHOR: “Posso.”
… silêncio…
EU: “Então, como faço para chegar lá?”
SENHOR: “Pois sim, a senhorita deve descer a rua à frente até o largo onde está a estação Restauradores. Nesse local, pegue o metrô que passa pela estação Marquês de Pombal, na qual a senhorita deverá saltar. A avenida que procura está a uma ou duas quadras da saída principal.”
Foi minha primeira descoberta sobre os portugueses: na terrinha, a objetividade é ouro! Aos patrícios de Camões e Figo, sempre pergunte exatamente o que quer saber para não deixar margem a segundas ou terceiras respostas. O mesmo idioma que une brasileiros e portugueses pode, por vezes, afastar. Parodiando o tão citado verso de Fernando Pessoa, navegar é preciso, falar não é preciso. Isso porque ao falar não estamos fazendo uso de instrumentos de precisão como astrolábios, bússolas e mapas, que guiavam pelo mar afora os bravos navegantes de outrora. De um lado para outro do Atlântico, as palavras mudam de sentido, ganham novos usos, adaptam-se às circunstâncias. Continuar lendo “Crónica Lisboeta (2001)”