Riscando o azul, um avião. A manhã está clara, ausência de nuvens no céu. Os raios de sol atravessam as copas do arvoredo, manchando o gramado mal cuidado. Há sujeira e abandono por toda parte. Copos plásticos, restos de comida, pontas de cigarro misturam-se ao barro, às formigas, ao mato crescido.
As árvores estão dispostas em círculo formando uma espécie de cerca viva. Na clareira interna, um poste procura disfarçar a escuridão quando a noite cai. Ao redor dele, meia dúzia de bancos de cimento lembra uma estranha escultura. Há ainda na praça um ponto de ônibus (principal motivo de movimentação humana no lugar), um carrinho de pipoca e, esquecida em um canto, uma banca de jornal e revista.
– Manhê, compra pipoca? O pipoqueiro acabou de fazer… Compra, vai?
– Já disse que não! E pare de chorar senão vai ter, ouviu?
“Começou cedo hoje. Todo dia é a mesma lengalenga. A fila do ônibus, o menino chorando, aquele imprestável que nem um empreguinho qualquer consegue. O vizinho até que falou de uma vaga como auxiliar de pedreiro, mas o infeliz deu de ombros. Ah, se eu pudesse, juro por Nossa Senhora Aparecida que mudava de vida. Pegava aquele avião lá em cima e ia me embora daqui. Sumia do mapa, desaparecia por esse mundão. Mas, e aí, o que é que eu ia fazer, meu Deus do céu, com marido e filho para sustentar? Largar os dois é que não é direito. Continuar lendo “Vidas tangentes”